quarta-feira, 14 de julho de 2010

DOENÇAS E TRATAMENTOS

Para quem está habituado a observar as aves em liberdade, é fácil reconhecer, pela forma como se apresentam no aviário, quando alguma está doente.

Uma ave saudável é toda ela vivacidade, movimentos ágeis e elegantes, penas lisas e brilhantes acompanhando bem o corpo, porte mais ou menos levantado mas de cabeça firme e olhar penetrante. Mesmo que o seu canto não seja harmonioso e intenso, uma ave gosta sempre de emitir os seus sons habituais. É a sua expressão oral, o seu meio de comunicar e transmitir os seus diversos sentimentos quer se trate do chamamento nupcial, do chamamento dos filhos ou da afirmação do território perante algum intruso ou rival.

Será fácil, portanto, constatar que alguma coisa vai mal quando uma ave se apresenta empoleirada a um canto do aviário ou mesmo no chão, sem se mexer muito, penas enroladas ou em tufo, cabeça debaixo de uma asa, quase sempre dormitando. Num estado mais adiantado, nota-se uma respiração ofegante mais rápida do que o normal e apresenta as penas eriçadas junto do bico e molhadas ou sujas em volta da cloaca. Observando cuidadosamente, podemos ver que os seus excrementos são totalmente diferentes dos de uma ave saudável. Enquanto nesta eles são esbranquiçados com aspecto de pasta, tendo no final uma parte mais sólida de cor mais acentuada, os excrementos de uma ave doente são muito mais aguados, de cor acinzentada e, por vezes, com grande percentagem de mucosidades.

É claro que os sintomas genéricos que acabámos de descrever não são imediatamente comprovativos do tipo de doença que atacou a ave. Eles sugerem-nos apenas que alguma coisa de anormal se passa e que ela necessita de ser isolada e tratada numa gaiola à parte, em ambiente ligeiramente aquecido. Por outro lado, é um aviso de que precisamos de fazer uma certa desinfecção, no aviário, limpar poleiros e ninhos com uma solução de formol, mudar a areia, escaldar os comedouros e bebedouros, vigiando as restantes aves nos dias seguintes. Com efeito, a doença pode ser de carácter infeccioso, o que - diga-se de passagem - não é muito vulgar, sendo conveniente estar com atenção ao desenrolar dos acontecimentos.

Como já foi referido, o diagnóstico é sempre difícil. Mas convém dizer desde já que num aviário em perfeito estado de limpeza, onde não haja violentas correntes de ar nem fumos tóxicos e com o tipo de alimentação adequado para os seus pensionistas, as aves não adquirem doenças graves.
Seguem-se então algumas doenças, que se podem passar com uma ave e respectivos tratamentos:

TUBERCOLOSE

Causada pelo Mycobacterium avium, esta doença pode ser contraída por aves de todas as espécies. É habitualmente transmitida através dos excrementos das que se encontram doentes ou dos produtos alimentares, nomeadamente cascas de ovos que não tenham sido previamente fervidas. A transmissão por via respiratória não é muito frequente embora possa ser transmitida pelo homem.
As aves atacadas pela tuberculose começam por perder peso, emagrecendo bastante, apesar de continuarem a ter apetite. Como a camada de penas esconde a parte muscular, este enfraquecimento progressivo não é fácil de detectar excepto se segurarmos a ave nas mãos. Só num estado mais adiantado, começam a "enrolar" as penas, nome que se dá quando elas ficam eriçadas e ligeiramente enroladas. Vomitam igualmente a comida, refugiando-se num canto do aviário em letargia quase permanente. E claro que uma ave nestas condições deve ser imediatamente isolada. Tanto quando se conhece hoje em dia, a tuberculose nas aves é incurável. O animal morto deve ser queimado.
Como se trata de uma doença contagiosa, aplica-se aqui inteiramente a regra da desinfecção total do aviário com uma solução a 3% de formol ou qualquer outro desinfectante. É ainda conveniente que as restantes aves do mesmo aviário passem a dispor de comida rica em vitaminas e sais minerais.

PARATIFO

É uma doença intestinal contagiosa para todas as espécies de aves e mesmo mamíferos, incluindo o homem. É também conhecida com o nome de Salmonelose visto ser causada pela bactéria Salmonella Typhi murium. Os pássaros jovens são facilmente atacados e podem morrer rapidamente. Por vezes, os adultos funcionam apenas como transmissores da doença. E por isso que mais uma vez se recomenda todo o cuidado na aquisição de novos exemplares (onde e em que estado), efectuando a quarentena numa gaiola isolada e só depois permitindo a sua passagem para o aviário.
Os sintomas mais aparentes da ave atacada por paratifo são os excrementos aquosos, amarelados ou esverdeados, a inflamação em volta de toda a cloaca e. por vezes. mucosidade nos olhos. Além disso. na sua forma aguda. o animal vomita tudo o que come e refuga-se a um canto do chão com as penas eriçadas.
O tratamento que se conhece, embora sem resultados muito favoráveis, é a administração de antibióticos como a estreptomicina e o cloranfenicol ou sulfamidas. A dose está indicada nas embalagens para uso veterinário e de acordo com o peso da ave.

PSITACOSE OU ORNITOSE

Esta doença, extremamente contagiosa e que pode ser transmitida mesmo ao homem, tem efectivamente dois nomes. Como foi descoberta em primeiro lugar nos psitacídeos, a denominação adquiriu a raiz morfológica "psitac". Mais tarde, verificou-se que ela existia também nas outras aves e daí o nome de Ornitose. E vulgar nos papagaios trazidos dos países de origem e por isso se deve ter muito cuidado com a importação.
Como sintomas gerais, indicam-se os vómitos e os excrementos aquosos de cor cinzenta, cinzenta esverdeada, ou por vezes verde-escura. A ave agacha-se com as penas eriçadas, em tufo. Num estado já muito adiantado, o mal atinge o próprio sistema nervoso e ela não consegue segurar-se no poleiro desequilibrando-se com facilidade e acabando por morrer.
Como sempre, o diagnóstico é difícil nos primeiros tempos da doença, pois o período de incubação varia entre 5 dias e 3 meses. Mas, entretanto, a ave pode não apresentar quaisquer sintomas. Se não houver cuidado, o contágio estende-se mesmo ao homem através da respiração do ar infectado e a doença manifesta-se por uma inflamação nos pulmões.
O único tratamento possível é à base de antibióticos mas em regra as aves acabam por morrer.
Resta acrescentar, para sossego dos criadores, que a psitacose está hoje praticamente debelada devido à inspecção rígida a que são sujeitas todas as aves importadas.

APARELHO RESPIRATÓRIO

As doenças mais vulgares deste tipo são a constipação e o catarro. A primeira reconhece-se pela dificuldade que a ave tem em respirar, ao mesmo tempo que apresenta as aberturas nasais obstruídas. No catarro, pelo contrário, a respiração é rápida.
São normalmente doenças causadas por um resfriamento, pois as aves tropicais não suportam uma queda de temperatura. O tratamento consiste em colocar a ave numa gaiola separada, a uma temperatura de 35-40º C. Isto consegue-se cobrindo a gaiola parcialmente com um pano e pondo por cima uma lâmpada eléctrica de 25 W. Como é natural, a temperatura do ambiente tem influência na forma de alcançar aquela que se pretende no interior da gaiola. Assim, é conveniente usar um pequeno termómetro pendurado nos arames e ir observando se a potência da lâmpada é suficiente e se é necessário colocá-la mais próximo ou mais afastada do topo da gaiola.
A alimentação deve ser rica em vitaminas. Se tal for preciso, convém limpar os orifícios nasais com glicerina líquida. Logo que a ave se mostre em condições, procede-se ao abaixamento gradual da temperatura até atingir a do ambiente do aviário ou viveiro, o que se consegue diminuindo a intensidade da lâmpada e afastando-a progressiva-mente da gaiola.
Apenas em casos já muito adiantados é necessário usar antibióticos.

APARELHO DIGESTIVO

Os chamados desarranjos intestinais são normalmente caracterizados por diarreia aquosa ou com mucos, de cor cinzenta ou cinzenta-acastanhada. Além disso, as penas em redor da cloaca ficam bastante sujas e a pele nessa mesma zona apresenta-se avermelhada. A ave tem também vómitos e, como é natural, encolhe-se a um canto com as penas eriçadas e a cabeça debaixo da asa.
As causas devem ser geralmente procuradas na má alimentação (sementes sujas) e na água igualmente suja ou extremamente fria, embora a doença possa aparecer como resultado de um resfriamento.
O tratamento consiste no isolamento em gaiola aquecida (ver doenças do aparelho respiratório) e na administração de um antibiótico ou sulfamidas para uso veterinário, nas doses indicadas de acordo com o peso. A ave não deve comer verdura e, em vez de água, coloca-se no bebedouro chá de camomila. Também como doença do aparelho digestivo podemos considerar a proliferação de uma bactéria normalmente existente nos intestinos das aves, chamada Escherichia coIi, onde auxilia a digestão. Com efeito, devido a um enfraquecimento que pode resultar de uma alimentação deficiente, a bactéria multiplica-se em quantidade exagerada e provoca no animal sintomas graves que podem levar à morte. O tratamento consiste na aplicação de uma pequena dose de antibiótico.
As aves podem ainda ser atacadas de prisão de ventre ou obstipação. Neste caso, dá-se à ave alimento verde, com o auxílio de um conta-gotas, obriga-se a engolir uma gota de azeite

CONJUTIVITE

Como facilmente se depreende, trata-se de uma inflamação nos olhos, em regra devida à falta de higiene ou às poeiras existentes no aviário.
O tratamento, tal como acontece para os outros animais, consiste na aplicação de algumas gotas de um preparado específico, pelo menos duas vezes ao dia e durante duas semanas.

RAQUITISMO

É uma doença causada pela falta de substâncias minerais na alimentação e que atinge sobretudo as crias. Estas, ao sair do ninho, apresentam certa dificuldade em manter-se de pé, chegando mesmo a encurvar as pernas.
O tratamento é sobretudo à base de vitamina D mas, como em muitos outros casos, é melhor evitar que tal aconteça administrando sempre aos pais uma alimentação adequada e, se necessário, algumas gotas de um preparado vitamínico na água ou na comida.

CAUSADAS POR PARASITAS

Existem duas grandes classes de doenças deste tipo, conforme são causadas por endoparasitas (que vivem no interior do corpo do animal) ou ectoparasitas (que vivem no exterior).
Dos endoparasitas, citamos em primeiro lugar os que originam a conhecida coccidiose. Vivem nas paredes dos intestinos causando profundas inflamações, a tal ponto que os excrementos das aves chegam a apresentar vestígios de sangue de mistura com uma mucosidade característica. A doença é, portanto, infecciosa e convém que a ave seja imediatamente isolada e tratada com um medicamento à base de sulfamidas.
Nos intestinos das aves, podem ainda aparecer vermes parasitas do género Capillaria, cuja presença só pode ser detectada através da análise dos excrementos. O tratamento é então indicado por um veterinário.
Entre os ectoparasitas, o mais comum é o causador de uma espécie de escamação exagerada na pele das pernas. E o Chemidocoptes mutans que pode ser perfeitamente combatido aplicando um pouco de azeite ou um preparado oleoso nas regiões afectadas. O óleo tapa os orifícios respiratórios do parasita, ocasionando portanto a sua morte.
Os outros ectoparasitas pertencem ao grupo dos insectos Mallophagus e atacam não só a pele como parte das penas das aves. No entanto, chegam a alimentar-se do próprio sangue e, se o seu número for demasiado, o que se nota pela intensidade com que a ave se cata, devemos aplicar um preparado insecticida dos que se vendem nas lojas da especialidade e para o fim adequado.
Uma ave tem sempre tendência em alisar as penas e catar-se. Mas, se esse procedimento for exagerado e quase violento, é a altura de intervir.

ARRANQUE DAS PENAS

Não é normal que as aves arranquem as penas das outras aves, as suas próprias ou até mesmo as dos filhos quando estes se encontram nos ninhos. Se tal acontece, é porque algum desequilíbrio existe na manutenção e sobretudo na parte alimentar. Efectivamente, esse procedimento nunca aconteceria se as aves estivessem em liberdade, tendo à sua disposição tudo o que necessitam. Em cativeiro, o facto é por demais conhecido não só nas aves (veja-se o caso das galinhas) como até nos próprios mamíferos. O que se passa é que a ave procura nas penas (tal como os mamíferos o fazem nos pêlos) o alimento de origem animal que lhe falta na dieta diária fornecida pelo criador. É esse o único recurso que têm à sua disposição. Por vezes, é claro, isso torna-se um vício, mesmo depois de restabelecido o equilíbrio. Teremos portanto toda a vantagem em evitar que tal aconteça, mas não se diga - e temos muitas provas disso - que o vício não se pode curar.
No capítulo referente à alimentação, falámos detalhadamente da necessidade da inclusão de proteínas de origem animal na dieta das aves. Ovo cozido, insectos e até mesmo um pouco de presunto não muito salgado são precisamente alimentos que devem ser administrados quando as aves denotam um estranho apetite pelas penas: as suas ou as das outras aves.
Por vezes, um ambiente demasiado seco também pode desencadear o mesmo procedimento, assim como uma falta de vitaminas ou sais minerais. Como é evidente, é necessário então fazer pulverizações frequentes de água tépida e não esquecer os alimentos que forneçam vitaminas e sais minerais.

DIFICULDADE NA POSTURA DOS OVOS

Embora não se trate propriamente de uma doença, a dificuldade em expulsar os ovos pela cloaca pode ser devida a vários factores, entre os quais o tempo frio e novamente a falta de substâncias minerais.
Quando tal acontece, a fêmea apresenta-se agachada num canto do aviário com as penas eriçadas e fazendo pequenos movimentos com o corpo, como se tentasse em vão expulsar o ovo.
A melhor forma de a auxiliar é mudá-la para um ambiente aquecido, pegando nela com todo o cuidado e depois segurando-a por cima de uma cafeteira com água a ferver, de modo a que o vapor de água atinja toda a parte inferior do corpo. Normalmente, produz-se uma dilatação da cloaca e a ave chega a pôr o ovo naquele mesmo instante na nossa mão.
Nos casos mais graves, é necessário colocar uma gota de azeite com o auxílio de um conta-gotas no interior da cloaca, ao mesmo tempo que se efectua a mudança da ave para um ambiente húmido e ligeiramente aquecido.

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